O Islam na história do Maranhão
Colunas - Zaid - Direto do Maranhão
Qui, 04 de Março de 2010 10:54
Salam,
O Islam tem suas raízes em território Maranhense duma forma óbvia, sendo no período colonial e de tráfico negreiro o principal porto da província, muito se sabe sobre a trama da oligarquia da época de apagar os vestígios históricos da miscigenação destes que aqui vivem, mas o que só poucos livros contam, nem o maiores homens da história poderiam impedir a história contada e passada viva de pai para filhos nos quilombos da futurística e espacial, hoje, cidade de Alcantara, Viana entre outras onde os traços islâmicos, apesar de se submetido ao esquecimento pelos senhores da época, ressurge como uma flor numa pedra.
Bissmillah
Uma ligação estabelecida pelo tráfico atlântico a partir de meados do século XVIII e capaz de convergir com inúmeros outros fatores na composição do maranhense. O Maranhão não esteve de forma alguma desvinculado das relações com o Atlântico, ao contrário, esteve intimamente ligado a ele. E a partir deste ponto é possível denotar uma importante herança religiosa na formação do Maranhão que desembocara em expressões valorosas para o conjunto da cultura popular do lugar, o tráfico desembocou no Maranhão.
Alguns estudiosos já denominaram o lugar de “Terra Mandinga” (ASSUNÇÃO, 2001), uma alusão à influência de um grupo em especial entre tantos outros grupos étnicos que adentraram a região. Esse grupo da Alta-Guiné, os Mandingas, foi comercializado no Atlântico por outros africanos que entre vários motivos não aceitavam sua religiosidade tradicional. Descendentes de um reino preponderante de séculos atrás com bases islâmicas, eles formaram uma rota de escravos que saía de dois portos na costa da Alta-Guiné e chegavam em São Luís do Maranhão, capital do Estado.
São Luís do Maranhão foi classificado pela historiografia como a quinta localidade no período da independência do Brasil em recebimento de escravos, apesar da tardia adesão à utilização da mão-de-obra escrava negra. Pernambuco e Bahia começaram já durante o século XVI com a utilização do escravo africano como uma das forças produtoras enquanto a província do Maranhão teria dedicado
pequenos investimentos a questão do tráfico, sem abandonar a escravidão indígena, até meados do século XVIII. Foi na realidade, a partir de 1755 que começou o ingresso maciço de escravos africanos, muitos muçulmanos, com a criação da famigerada Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão.
Em 1775 a entrada de africanos era intensa e isso pode ser percebido através dos navios que chegaram ao porto da capital do Estado. Das trinta e uma viagens registradas num dos livros de visita de São Luís, capital da província do Estado, no começo da década de 90 – os primeiros três anos – do século XVIII somente dez provinham de algum território do Estado do Brasil enquanto dezoito provinham da Alta-Guiné e um da Costa da Mina. Os livros de visita registravam as condições de saúde das embarcações que intencionavam atracar no porto e destacavam o carregamento do navio. No caso, todas estas embarcações traziam escravos com uma quantidade maior vindos da Alta-Guiné que da Bahia, 2907 e 1013, respectivamente. Isso se dá em parte pela quantidade de embarcações carregadas de escravos vindos de Guiné estarem em maior número que as embarcações vindas do Estado do Brasil e também pelas “brasileiras” serem menores, em geral sumacas, pequenas embarcações de dois mastros, ágeis e adequadas a navegação costeira. A partir do mesmo livro de termos de visita Antonia Mota (2001) conseguiu estabelecer a entrada de 7539 escravos entre os anos de 1790 e 1795 destes 4670 vieram dos portos islamizados de Cacheu e Bissau correspondendo a 61,9% dos africanos que ingressaram no Mali, reino dos Malinkes, era assim um império centralizador com um maquinário administrativo muito forte. Entretanto, sua força maior estava na sua complexidade religiosa que legitimava suas ações políticas e centralizadoras. Com uma das maiores religiões do mundo em sua formação, o islamismo, sedimentou ações de conquista material e espiritual, um dos principais governantes, Sundjata Keita, fez, inclusive, uma peregrinação a Meca.
Entretanto, apesar de poderoso nos quesitos de administração política e, sobretudo, religiosa,os islamizados ocupavam todas as divisões e os animistas moravam numa localidade mais periférica. Contudo, seus imperadores não seguiram o exemplo da administração imperial de Kanka Mansa que fomentou um período de conquistas grandes para o império durante o século XIV, levando a inevitável desagregação e conseqüente desaparecimento.
Por meio da venda de escravos para os portugueses comercializaram africanos Muçulmanos com uma particularidade: ficaram sempre no Maranhao. Apesar de espaços diferentes, com contextos e historicidades específicas, o Emirado de Ilórin e o Kaabu, através dos Dyula, utilizavam os fortes pressupostos da religião islâmica, (assim a própria religião islâmica poderia se difundir e alcançar os ideais de salvação pregados pela sua formação monoteísta) em interesses de consolidação da crença. Contudo, o Emirado de Ilórin não possuía um modelo de organização como a Mansaya capaz de propiciar uma relação entre animismo e islamismo, na realidade o emirado recomendava com ênfase que seus partidários “abominassem os cânticos tradicionais”.
Em São Luís do Maranhão, os livros de Registros Paroquiais da Arquidioceses da época registram uma alta presença do termo Mandinga(Muçulmanos). No livro de óbitos n° 4, (1779 a 1787) a quantidade geral de escravos africanos era muito reduzida, pois uma grande leva ainda estava em processo de chegada à região, enquanto outros já trabalhavam a pouco tempo nas lavouras – a entrada maciça de africanos Muçulmanos se dá a partir de 1755 – e, portanto, o número de mortos existentes aqui é reduzido frente a realidade de escravos africanos muçulmanos dentro do território maranhense. Portanto, é inegável a presença Malinké no Maranhão durante o século XVIII. O difícil, na realidade, é quantificá-los em virtude da documentação limitada. Eles estavam na província do Estado do Maranhão e Piauí, uma leva considerável de mandingas animistas.
Flávio Gomes, numa pesquisa recente financiada pelo CNPq e ainda em processo de organização dos dados no período de final do século XVIII até 1880 nos inventários do arquivo do tribunal, revela que dos 2786 africanos relacionados 634 são Angolas, o segundo grupo preponderante são os Mandingas com 419 e o terceiro são os Minas com 283. A presença Mandinga é inquestionável. A influência animista, poderia ser?
Parece-me aceitável acreditar que existiu certo poder animista deste imenso grupo étnico na formação do Maranhão.Herdeiros de uma estrutura social e política forte e bem organizada foram mandados para o Maranhão após a decadência do império que faziam parte, por uma antiga possessão do Mali. Entre os motivos de terem sido comercializados destaca-se uma causa religiosa território maranhense.
Fontes:
Insurreição de escravos em Viana 1867 – Mundinha Araújo
Ina a violação do sagrado – Mario lincon
Anais da História do Estado do Maranhão – Bernardo Pereira de Berredo
História do Maranhão – Mario M. Meireles
História do Maranhão - A Colônia – Carlos Lima
Dicionário Histórico Geográfico da província do Maranhão – César Augusto Marques
SubhānakAllāhumma wa bihamdika ash-hadu an lā ilāha illā anta astaghfiruka wa atūbu ilayka.
Quão perfeito és Tu, ó Allah, e a Ti eu louvo. Testemunho que não há divindade digna de adoração além de Ti. Eu peço Teu perdão e me volto para Ti arrependido.
Zaid Mohammad Abdul-Rahman Duarte (nascido Marcos Mário Duarte) a 08 de Maio De 1974 convertido há 13 anos, nascido e criado na cidade Ilha de São Luis do Maranhão, Consultor Halal, Idealizador, Fundador, Vice-Presidente e Emir da Sociedade Islâmica do Maranhão. Para falar com o autor, envie um e-mail para
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