Início América Latina Ibn Khaldun e a Inovação da Sociologia

Ibn Khaldun e a Inovação da Sociologia

19
0

Os muçulmanos tiveram um papel destacado e pioneiro nas ciências humanas e intelectuais, criando ciências de alto nível e de grande importância no campo social humano. Eles também criaram importantes ciências exclusivas da lei (Sharia) islâmica e outras exclusivas da língua árabe.

O dicionário de termos das ciências sociais define a sociologia como: “a ciência cujo objeto é estudar, descrever e comparar as sociedades humanas como elas são condicionadas por seus enquadramentos temporal e espacial, na tentativa de descobrir leis de evolução em que essas sociedades humanas são influenciadas em seu progresso e mudança.”[1]. 

O assunto da sociologia

Os sociólogos definem o objeto da sociologia nos fenômenos sociais, que se revelam resultado do convívio das pessoas em sociedade e da sua interação e envolvimento em relações e na criação do que é chamado de cultura comum, na qual as pessoas estão de acordo sobre certos métodos para a expressão de suas idéias, sobre definidos valores e sobre certos métodos no assunto da economia, do governo e da moralidade, e outros.

Muqaddimah (conhecido como Prolegômenos no Ocidente), o primeiro volume de seu livro sobre a história universal, Kitab al-Ibar. Ele é considerado um precursor de várias disciplinas científicas sociais: demografia, história cultural, historiografia, filosofia da história, e sociologia. Ele também é considerado um dos precursores da moderna economia, ao lado do antigo erudito indiano Cautília. Ibn Khaldun é considerado por muitos como o pai de várias destas disciplinas e das ciências sociais em geral, por ter antecipado muitos elementos dessas disciplinas séculos antes de terem sido fundadas no Ocidente.

Os fenômenos sociais começam quando duas ou mais pessoas interagem e se engajam em relações sociais. E quando essas relações permanecem e continuam, os grupos sociais são formados. E os grupos sociais são um dos assuntos básicos da sociologia.

Outro assunto da sociologia se representa nos processos sociais, como conflito, cooperação, competição, acordo, a estratificação social e a mobilidade social. Assim como a mudança de cultura e as estruturas sociais também são importantes assuntos da sociologia. Temos também os sistemas sociais, que são os métodos que regulam e estabelecem o comportamento social e a personalidade, que é o fator que molda e é moldado pela cultura[2].

Ibn Khaldun, fundador da sociologia

Apesar de o pensamento social ser tão antigo quanto o próprio homem, o estudo das sociedades humanas se tornou um tema para uma ciência há pouco tempo. O estudioso muçulmano Ibn Khaldun foi o primeiro a estabelecer esta ciência e a independência de seus assuntos. Ibn Khaldun, disse em frases claras, que ele explorou uma ciência independente, sobre a qual nenhum de seus ancestrais falou. Ele diz: “Esta é uma ciência independente, tem o seu próprio objeto peculiar, que é a civilização humana, e a sociedade humana. E tem suas questões, que são explicar as condições que se prendem com a essência da civilização, um após o outro. Esta é a situação de todas as ciências, seja ela exata ou intelectual”[3].

E ainda acrescenta: “Saiba que a palavra deste objeto é uma nova produção, uma rara tendência, encontrado através de pesquisa e resultado de aprofundamento. É uma ciência inteiramente original. Na verdade, eu não me deparei com uma discussão nesse sentido por qualquer outra pessoa. Não sei se isso ocorreu por causa da desatenção deles sobre este assunto, e não é esta a minha suspeita sobre eles (de não ter tido conhecimento do mesmo). Ou talvez eles tenham escrito sobre o tema e sua obra não chegou até nós?”[4]

Ele ainda convidou os capacitados a completar o que ainda falta sobre esta ciência, dizendo: “Talvez quem vem depois de nós, auxiliado por Allah com um pensamento correto e um sólido conhecimento, se aprofunde em suas questões além daquilo que nós escrevemos. A pessoa que cria uma nova disciplina não tem a tarefa de enumerar todas as questões, mas sua tarefa consiste em especificar o assunto da ciência, suas várias ramificações e os debates relacionados com ele. E os seus sucessores, em seguida, podem adicionar gradualmente mais questões, pouco a pouco, até que a ciência se complete”[5].

Além disso, al Muqaddimah de Ibn Khaldun (os Prolegômenos de Ibn Khaldun) abrangeu, pelo menos, sete ramos da sociologia moderna, as quais ele abordou de forma muito clara[6].

Apesar de tudo isto, e apesar do famoso sociólogo austríaco Ludwig Gumplowicz dizer que: “Nós queremos provar que, antes de August Count[7], e até mesmo antes de Giambattista Vico, que os italianos queriam fazer dele o primeiro sociólogo europeu, um muçulmano piedoso veio e estudou os fenômenos sociais com uma mente equilibrada e chegou a opiniões profundas neste assunto. O que esse erudito muçulmano escreveu é o que chamamos de sociologia hoje[8]. Apesar de tudo isso, a história da ciência da sociologia lembra o francês August Count como o primeiro fundador desta ciência e ignora totalmente o verdadeiro fundador desta ciência, que deixou claro que ele foi o primeiro a descobrir esta ciência[9].

Apenas os observadores têm testemunhado que August Comte assimilou muitas de suas teorias e opiniões de Muqaddimah Ibn Khaldun[10]. Ibn Khaldun é considerado um ponto de transformação na escrita da história humana e em sua fundação à sociologia, pois com isso ele agitou o pensamento humano global, colocando um novo plano e apresentando novas idéias e, ainda mais, estabeleceu novas leis que podem ser aplicados em todas as sociedades humanas partindo do fato de que o homem não pode viver, exceto em uma sociedade.

E se ele vive em uma sociedade, ele deve viver com um povo, e se vive com um povo, terá que viver em um pedaço de terra. Para que essa relação permaneça entre essas pessoas, tribos ou grupos humanos, um governante deve organizar estas relações. E os tipos de governantes variam desde um governador simples (cacique, sheikh de uma tribo) até um governante absoluto, que conseguiu usar e explorar todos os meios que lhe foram preparados por esse conglomerado humano para se tornar um governante absoluto que pode estabelecer seu próprio Estado. Se este governante estabelece o Estado como previsto na teoria de Ibn Khaldun esse estado passa por diferentes fases, que darão certo na aplicação na vida real[11].

É importante, neste contexto, enfatizar algo sobre Ibn Khaldun, o fundador desta ciência. Ele é Abu Zayd Abd Al-Rahman ibn Khalid (Khaldun) Al-Hadrami, nascido na Tunísia, na primeira noite do Ramadan (732 dH). Ele se mudou para Fez, Granada, Tlemcen, Andaluzia e também para o Egito, onde ele foi homenageado pelo sultão do Egito Al Dhahir Barquq, foi nomeado juiz da escola Maliki de fiqh (uma das quatro escolas de jurisprudência islâmica). Ele permaneceu no Egito cerca de 25 anos (784-808 dH), onde ele morreu e foi sepultado aos 76 anos[12].

Ibn Khaldun foi criado em uma família de ciência e alta posição, memorizou o Alcorão Sagrado em sua infância. Seu pai foi seu primeiro professor e também estudo com os estudiosos famosos de sua época. Ele se dirigiu para vários cargos públicos depois que a maioria de seus professores morreram em uma epidemia de peste que atingiu seu país. Ele começou sua carreira política na chancelaria do governante tunisino Ibn Merin. No entanto, este trabalho não atendia às suas aspirações. Foi nomeado pelo sultão Abu Inan – rei do Marrocos – como membro de seu conselho científico em Fez. Então, lhe foi propiciado iniciar aulas nas mãos de sábios e literários que vieram para Fez da Tunísia, Andaluzia e dos países do oriente.

Mais tarde, Ibn Khaldun mudou-se para Granada deixando sua família em Fez. Depois, ele voltou para Wahran na Argélia para permanecer com a família no castelo Ibn Salama durante quatro anos. Daqui, ele começou seus primeiros escritos com seu livro: wa “Al-ibar fi Diwan Al-Mubtada wa Al-Khabar fi Ayyam Al-Arab wa Al-Ajam wa Al-Barbar wa man A’ssarahum min Dawiu Al-Sultan Al-Akbar” (As Lições no Registro do Sujeito e Predicado dos Dias dos árabes, estrangeiros e berberes e seus contemporâneos dotados de grande autoridade). A introdução deste livro é considerada a primeira e mais famosa introdução escrita sobre a sociologia, os assuntos da sociedade humana e suas leis. Neste preâmbulo, ele lidou com o que hoje é denominado “manifestações sociais” ou o que ele chama de “realidades da civilização humana” ou “situações da organização social humana”[13].

Muqaddimat Ibn Khaldun (Os prolegômenos de Ibn Khaldun)

Ibn Khaldun simplificou em sua Muqaddimah tudo o que tinha de conhecimento. Então, essa introdução veio muito preciosa e muito bem avançada à época em que foi escrita. Ela contém seis capítulos da seguinte forma:

Capítulo um: a civilização humana (equivalente à sociologia pública). Ibn Khaldun estudou os fenômenos da sociedade humana e as regras cursadas pelas sociedades.

Capítulo dois: a civilização beduína. Ele estudou a civilização beduína, revelando suas características mais destacadas e que é a origem da civilização urbana e é anterior a ele.

Capítulo três: sobre o Estado, o Califado e o Reinado (é equivalente à sociologia política). Ele explica neste capítulo, as regras de governança, os sistemas religiosos, entre outros.

Capítulo quatro: a civilização sedentária (ou o que chamamos de sociologia urbana). Neste capítulo, Ibn Khaldun, explica todos os fenômenos urbanos relacionados, as bases da civilização e que a civilização é o objetivo do urbanismo.

Capítulo cinco: sobre os ofícios, meios de sobrevivência e trabalho (equivalente à sociologia econômica). Ele estudou a influência das situações econômicas sobre as condições da sociedade.

Capítulo seis: sobre as ciências e sua aquisição (equivalente à sociologia da educação). Neste capítulo, Ibn Khaldun explica os fenômenos educacionais, os meios de aprendizado e classificação das ciências.

Ibn Khaldun também estudou a sociologia religiosa e legislativa, ligando entre a política e os valores morais[14].

Na verdade, ninguém antes de Ibn Khaldun estudou os fenômenos sociais de forma analítica, que produziu resultados como os produzidos pelo estudo de Ibn Khaldun, em especial porque este pensador muçulmano estudou estes fenômenos sociais a partir de sólidas e saudáveis fontes históricas, assim como os cientistas estudam física, química, matemática e astronomia. Ele é considerado o primeiro a submeter estes fenômenos sociais sujeitas a um método científico, empírico que o levaram a muitos fatos fixos que parecem leis. Assim, o que Ibn Khaldun atingiu de teorias, continuará sendo um trabalho pioneiro no campo dos estudos sociais na marcha do pensamento humano[15].


Notas:

[1] Ahmad Zaki Badawi: Mujam Al Mostalahat Al Ijtemayah (Dicionário de termos sociais), p 4.

[2] Veja: Mansur Zuwayd al-Muta’iri: Al Seyaghah Al Islamyiah Lielm Al Ijtemaa, Al Dawaí wa Al Makan (A Apresentação Islâmica da Sociologia – razões e local), p 28, 29.

[3] Ibn Khaldun: Al-Muqaddimah 1 / 38.

[4] Idem: A mesma página.

[5] Ibn Khaldun: Al-Muqaddimah 1 / 588.

[6] Veja: Hasan al-Sa’ati: Ilm Al Ijtemaa Al Khalduni (Sociologia Khaldunista), p. 28-35.

[7] August Count (1789-1857): filósofo francês, fundador da filosofia positiva e fundador da sociologia ocidental. Sua obra principal é “Estudos sobre a Filosofia Positiva”.

[8] Transferido de Mustafa al-Shaka’a: As fundações islâmicas no pensamento de Ibn Khaldun e suas teorias, p 198.

[9] Mansur Zuwayd al-Muta’iri: Al Seyaghah Al Islamyiah Lielm Al Ijtemaa, Al Dawaí wa Al Makan (A Apresentação Islâmica da Sociologia – razões e local), p 23, 34.

[10] Abd-al-Wahid Wafi: Dirassat Muqaddimah Ibn Khaldun, transferido de Abdallah Nasih Ilwan: Marcos da civilização no Islam e seus efeitos sobre o renascimento europeu, p 48.

[11] Suhilah Zain al-Abidin, Nazaryat Al Dawlah ind Ibn Khaldun (A teoria do Estado para Ibn Khaldun), revista Al Manar, números 75, 76, 77 – ano 1424 H.

[12] Al-Zirikli, Al-Alam 3 / 330.

[13] Al-Zirikli, Al-Alam, 3 / 330, Mustafa al-Shaka’a: As fundações islâmicas no pensamento de Ibn Khaldun e suas teorias, p 21 em diante.

[14] Veja: Nouman Abdul Razzaq Al-Sammiraí: Nós, a civilização e as testemunhas, 1 / 120.

[15] Mustafa al-Shaka’a: As fundações islâmicas no pensamento de Ibn Khaldun e suas teorias, p 77, 78.