CDIAL participa da colocação da placa do projeto a Rota do Escravo, em sitio arqueológico reconhecido pela UNESCO. Sepultada por toneladas de terra e séculos de esquecimento, jaz no Centro antigo do Rio, uma dolorosa memória da escravidão. São os resquícios do Cemitério dos Pretos Novos, cimentados sob os bairros da Gamboa e da Saúde.

Eles reaparecem aos poucos, em escavações, análises de ossos, dentes e objetos. Cada um deles revela um pouco mais de uma história que assombra pelas dimensões da crueldade e da ambição que trouxeram da África milhões de escravos para o Rio. Uma dessas análises foi concluída este ano e confirma a tese de que a cidade foi um dos maiores portos de entrada de escravos das Américas.

Pessoas escravizadas originárias de quase todas as partes da África chegavam ao Rio e daqui podiam ser levadas para o restante do país. Muitas não resistiam às condições desumanas da travessia do Atlântico ou do mercado de escravos do Rio e eram enterradas perto do porto. O termo enterro é, de fato, um eufemismo. Os corpos eram abandonados à decomposição ou queimados.

Para melhor entendermos o comportamento das sociedades atuais, primeiramente precisamos compreender o processo de evolução dos povos. O estudo de ossos humanos encontrados em sítios arqueológicos é de extrema importância para o conhecimento das condições socioculturais das antigas populações. Muitos aspectos patológicos deixam marcas em ossos e, por isso, podem ser reconhecidos a partir do estudo científico de amostras.

No sítio arqueológico Cemitério dos Pretos Novos, no centro da cidade do Rio de Janeiro, foi descoberto um dos mais importantes patrimônios históricos da humanidade. No início do século XIX, mais de 70% dos escravos na cidade do Rio de Janeiro eram de origem africana. O comércio de escravos trouxe para o Brasil várias etnias distintas.

A maioria era proveniente de vastas regiões da África Ocidental, Central e Oriental e predominavam os de origem Bantu, que falavam diversos idiomas como o umbundo, o quimbundo, o kicongo, o nagô e o macua. Até 1700, os portos de Guiné e Congo eram os maiores exportadores de negros, enquanto que, durante o século XVIII, as embarcações saíam com mais frequência de Angola. A cidade de Luanda foi a maior exportadora de escravos para o Brasil.

No Rio de Janeiro predominavam as principais etnias: Mina, Cabinda, Congo, Angola (ou Luanda), Kassange, Benguela e Moçambique. Gabão, Anjico, Moange, Rebola, Kajenge, Cabundá, Quilimane, Inhambane, Mucene e Mombaça eram menos numerosas. Muitos desses grupos possuíam formas de identificação particulares.

Alguns apresentavam cicatrizes faciais, enquanto outros costumavam limar e/ou entalhar os dentes. Num primeiro momento, os portugueses que colonizavam o Brasil, traziam as populações africanas para o país e submetiam-nas a um trabalho forçado e escravo nas minas de ouro. Desde sua captura até o desembarque no Brasil, os escravos experimentavam, no mínimo, um ano de cativeiro.

Durante o transporte na travessia do Atlântico, a taxa de mortalidade era bastante alta, chegando, às vezes, a quase 20% do total capturado no continente. Daí, a enorme necessidade de identificar os negros com marcas feitas a ferro quente para indicar seus proprietários. Recebiam na pele também o sinal da cruz como prova de terem sido batizados no ritual católico. Muitos eram marcados após desembarcarem nos portos de destino ou então eram remarcados.

O Memorial

O Memorial dos Pretos Novos é parte integrante do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos – IPN que tem por finalidade a reflexão sobre a escravidão no Brasil, assim como o desenvolvimento de projetos educativos e de pesquisa para a preservação da memória dos Pretos Novos. Pretos Novos era o nome dado aos cativos recém-chegados da África e desembarcados no Rio de Janeiro, em meados do século XIX, em uma área da cidade chamada, então, de Pequena África. Neste local, hoje a zona portuária da Gamboa, ficava o mercado de venda dos negros cativos.

O memorial é um sítio arqueológico do Cemitério dos Pretos Novos que funcionou no local, entre os anos de 1769 e 1830, um ato de reverência e respeito aos milhares de negros recém-chegados à colônia, mortos ou doentes devido aos maus tratos durante a travessia do Atlântico. Estima-se que ali tenham sido depositados, em valas coletivas, os corpos de 20 a 30 mil negros, muito embora estes números não façam parte dos registros oficiais.

Com a proibição do tráfico negreiro, o cemitério foi fechado e a memória de sua existência sepultada em razão dos sucessivos aterros ocorridos na região, assim como ao apagamento de parte importante da história da escravidão na cidade do Rio de Janeiro. O Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos – IPN, Museu Memorial, tornou-se um dos mais novos Pontos de Cultura do Rio de Janeiro, graças ao “Projeto Memorial Pretos Novos: Resgatar a memória de um povo é preservar a cultura de um país”.

Um local de preservação da memória e fonte documental

O Memorial dos Pretos Novos é o resultado do trabalho conjunto de historiadores e de arqueólogos com base nas ossadas e nos vários artefatos encontrados no local durante a primeira escavação, realizada com o objetivo de delimitar a extensão do Cemitério dos Pretos Novos. Ao todo, foram encontradas 28 ossadas, com predomínio do sexo masculino entre 18 a 25 anos. Eram pedaços de crânio, de costela, dentes, mandíbula, nenhuma peça completa, o que demonstra que se tratava de um cemitério com covas, onde os corpos eram simplesmente jogados uns sobre os outros.

Se as ossadas revelam os sinais da brutalidade e do desrespeito com que esses negros eram tratados, os vários artefatos também encontrados como pontas de lança, argolas, colares, contas de vidro; artefatos de barro, porcelanas, conchas, ostras e vestígios de fogueira surgem como importantes fontes documentais, não apenas dos costumes e do cotidiano do Rio de Janeiro oitocentista, mas de que, há três ou quatro mil anos, o local também fora uma região sambaquieira.

Pirâmides de vidro, inauguradas em 2012 com uma manifestação religiosa com a presença de mães de santo, protegem e dão visibilidade aos achados arqueológicos depositados nos locais de escavações. A Galeria Pretos Novos apresenta exposições temporárias de arte contemporânea. A Biblioteca Pretos Novos, inaugurada em novembro de 2012, conta com cerca de 600 títulos dedicados à cultura, à história e às artes afro brasileiras e indígenas.

Espaço Físico: prédio, território e entorno 

O Memorial dos Pretos Novos tem sua sede em um sítio histórico ligado ao antigo Cemitério dos Pretos Novos, que funcionou entre os anos de 1769 e 1830. O prédio, localizado na atual Rua Pedro Ernesto, 36, bairro da Gamboa, remonta ao início do século XVIII, quando a rua era conhecida como Caminho do Cemitério. A história do bairro remonta a própria história de ocupação da cidade, no século XVI, quando o mar atingia toda a região da Gamboa e da Saúde, bairros adjacentes e situados entre a Central do Brasil, o cais do porto e o Morro do Valongo ou da Conceição.

Na região ficava o cais para desembarque dos navios negreiros e a quarta paróquia da cidade, a Igreja de Santa Rita erguida, entre 1702 e 1719. Como na cidade havia poucos terrenos destinados ao sepultamento dos negros recém-chegados da África, os Pretos Novos, seus corpos eram lançados em covas abertas na rua em frente à igreja. O local foi utilizado regularmente, até que o mercado de escravos fosse transferido da Rua Direita, atual Primeiro de Maio para o Valongo. Em 1741 foi aberta a Rua do Valongo, atual Rua Camerino, caminho pelo qual seguiam os negros desembarcados no Cais do Valongo até o mercado de compra e venda de negros, ali instalado, a partir de 1779, por ordem do Vice-Rei Marques do Lavradio.

Por ocasião da chegada da Imperatriz D. Tereza Cristina, em 1843, o cais do Valongo foi reformado e rebatizado de Cais da Imperatriz. A Rua do Valongo passou a se chamar de Rua da Imperatriz, assim permanecendo até 1890, ocasião em que recebeu o nome atual em homenagem a Francisco Camerino de Azevedo, herói da guerra do Paraguai. Por volta de 1750, a atual Rui Pedro Ernesto era conhecida era conhecida como o caminho da Gamboa, referência à praia do mesmo nome. Mais tarde, passou a ser chamada de Caminho do Cemitério, onde ficava o Cemitério dos Pretos Novos, ali instalado pela proximidade do mercado de negros criado na Rua do Valongo. Os relatos de viajantes que por aqui estiveram no século XIX nos contam que o cemitério não passava de uma montanha de terra e de corpos despidos, em decomposição, que de tempos em tempos eram queimados.

Em 1853, o Caminho do Cemitério passa a se de Rua da Harmonia. No local foi criado o Teatro de Amadores que depois se tornou Escola José Bonifácio, hoje, Centro Cultural José Bonifácio dedicado a Cultura afro-brasileira. Em 1946, a rua passa a se chamar de Pedro Ernesto. Embora a existência do Cemitério dos Pretos Novos fosse conhecida de historiadores e da literatura sobre a cidade do Rio de Janeiro e sobre a escravidão no Brasil, sua localização tornou-se totalmente desconhecida por décadas até o ano de 1996, quando, por ocasião de uma obra realizada na fundação da casa, foram encontrados ossadas humanas a poucos centímetros de escavação.

A pesquisa inicial e a análise dos vestígios arqueológicos, feitos pelo Instituto de Arqueologia Brasileira, confirmaram que se tratavam das ossadas depositadas no antigo Cemitério dos Pretos Novos. Os donos do imóvel pensaram em realizar exposições itinerantes com o rico material encontrado nas escavações, mas reconhecendo a importância do local para a história da cidade do Rio de Janeiro e para a divulgação da história dos Pretos Novos, decidiram que ali seria um espaço de visitação.

Instituição: trajetória e natureza jurídica

O Memorial dos Pretos Novos é uma instituição privada, um desdobramento das atividades do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), organização sem fins lucrativos, fundada, em 13 de maio 2005, pelos proprietários da residência na qual foi encontrado o sítio arqueológico, o casal Petrúcio e Maria De La Merced Guimarães.

A criação do IPN surgiu da mobilização do casal pela importância da descoberta arqueológica de que a residência que haviam comprado, em 1996, localizava-se sobre o antigo Cemitério dos Pretos Novos. No início, muito pouco se sabia de concreto sobre a história desses negros. Os poucos registros encontrados sobre o tema falavam de números, mas muito pouco sobre a chegada e da vida do negro africano na colônia. Este fato é o que tem inspirado a trajetória do IPN que desenvolve atividades diversificadas voltadas à divulgação e à valorização da cultura negra.

Professora divulgadora Rosângela França (CDIAL) e a sra. Ana Maria de La Merced, presidente do Instituto Pretos Novos.


fotos do memorial: 


material em PDF sobre o Memorial dos Pretos Novos :